Produzir uma embalagem para o setor alimentar implica muito mais do que cumprir especificações técnicas. A origem e composição dos materiais, as condições de fabrico e armazenamento, a rastreabilidade ou a capacidade de prevenir contaminações podem ter impacto na segurança do produto e, consequentemente, no cliente e no consumidor final.
A BRCGS Packaging Materials estabelece um referencial para a gestão destes riscos e para a produção de materiais de embalagem seguros, legais e com a qualidade especificada. Com mais de 6.800 sites certificados em mais de 90 países, é hoje uma certificação relevante para empresas que fornecem a indústria alimentar e outros setores com elevados requisitos de segurança e qualidade.
A experiência das auditorias realizadas segundo a Issue 7, em vigor desde abril de 2025, permite perceber onde estão algumas das principais dificuldades na aplicação do referencial — e, sobretudo, onde as empresas podem melhorar.
O que as auditorias estão a mostrar
Em Portugal existem atualmente 48 sites certificados segundo a BRCGS Packaging Materials. Os resultados das auditorias realizadas desde a entrada em vigor da Issue 7 são positivos: não foram registadas não conformidades maiores e as classificações obtidas acompanham, de uma forma geral, a tendência europeia.
Ainda assim, existem áreas que continuam a originar não conformidades. Entre as mais frequentes encontram-se a identificação de perigos, a avaliação da vulnerabilidade, a manutenção, a rastreabilidade e a verificação dos fluxogramas dos processos.
O interesse destes resultados está precisamente na possibilidade de antecipar fragilidades que podem existir também noutras organizações.
Uma análise de perigos tão boa quanto o conhecimento do processo
Um dos principais desafios identificados em Portugal está na análise de perigos. Não basta identificar os riscos mais evidentes. É necessário considerar todos os perigos razoavelmente previsíveis associados às matérias-primas, ao processo, às pessoas e à utilização da embalagem.
Contaminação cruzada, alergénios, manipulações ou defeitos críticos da embalagem são alguns dos aspetos que podem ficar fora da análise. Também deve ser considerada uma utilização previsível diferente daquela para a qual o produto foi concebido. Uma embalagem destinada a utilização a frio, por exemplo, poderá ser utilizada pelo consumidor para aquecer o alimento.
O fluxograma é uma peça fundamental deste trabalho. Operações como a aprovação de artes gráficas, devoluções, reincorporação de materiais ou o retorno ao processo de amostras utilizadas em ensaios podem ter de ser consideradas. A melhor forma de confirmar que nada ficou de fora continua a ser verificar o fluxograma no terreno: acompanhar os materiais e o produto ao longo do processo e confirmar que o documento representa aquilo que efetivamente acontece.
Vulnerabilidade não é um tema exclusivo dos alimentos
A avaliação da vulnerabilidade é outra das áreas que merece atenção, particularmente nas empresas que trabalham com matérias-primas provenientes de cadeias de abastecimento complexas ou com materiais reciclados.
No setor das embalagens, a análise deve considerar as características dos próprios materiais e situações em que possa existir uma motivação económica para fraude ou substituição.
Conteúdo reciclado, composição, número de camadas ou determinadas características de barreira são exemplos de informação que pode ser relevante.
Conhecer a origem das matérias-primas e avaliar adequadamente os fornecedores torna-se, por isso, essencial. A BRCGS Packaging Materials Issue 7 prevê diferentes mecanismos para a aprovação de fornecedores, permitindo adequar o nível de controlo ao risco associado.
Ter rastreabilidade não é o mesmo que demonstrar que funciona
A rastreabilidade continua a surgir entre as não conformidades identificadas, tanto internacionalmente como em Portugal.
Nem sempre significa que a empresa perdeu o rasto de um produto. Por vezes, o problema está na forma como testa e demonstra a eficácia do sistema.
Uma organização que trabalhe com diferentes grupos de produtos deve assegurar exercícios suficientemente representativos. E o exercício não termina quando se consegue reunir a documentação: é necessário avaliar os resultados e concluir se o sistema funcionou como previsto.
Na auditoria, a empresa deve conseguir demonstrar a rastreabilidade de forma eficaz, sendo quatro horas a referência indicada para a realização do exercício.
Quando existe um incidente, esta preparação faz a diferença na capacidade de identificar rapidamente matérias-primas, lotes, fornecedores e clientes potencialmente envolvidos.
O problema foi corrigido. Mas pode voltar a acontecer?
Esta é uma das questões mais importantes depois de uma não conformidade.
Imagine-se que um operador utiliza o material errado. A conclusão imediata pode ser simples: erro humano. A ação também: voltar a formar ou sensibilizar o colaborador. Uma análise mais aprofundada pode revelar uma realidade diferente. Os recipientes podiam não estar identificados; os rótulos podem ter sido retirados durante a limpeza e não repostos; pode não existir uma verificação após essa operação; ou o risco pode nunca ter sido considerado.
Nesse caso, formar novamente o operador não elimina a causa do problema.
Ferramentas como os 5 Porquês ou o Diagrama de Ishikawa ajudam a investigar as causas e a definir ações que reduzam efetivamente a possibilidade de recorrência.
Esta distinção é particularmente importante na BRCGS Packaging Materials. Numa auditoria posterior não é avaliado apenas se a situação anterior foi corrigida. É também verificado se as ações implementadas foram eficazes e se existem situações semelhantes noutras áreas ou processos.
A certificação funciona quando faz parte da operação
Os melhores resultados não dependem necessariamente de ter mais documentação. Dependem da capacidade de conhecer os riscos, controlar os processos e envolver as pessoas.
A experiência de empresas certificadas mostra precisamente isso. Na Intraplás, fabricante de embalagens para o setor alimentar com uma atividade fortemente exportadora, a BRCGS Packaging Materials está integrada na gestão corrente da qualidade e segurança alimentar.
Auditorias internas, formação, campanhas de sensibilização, inquéritos sobre cultura de segurança alimentar e comunicação regular com os colaboradores são algumas das práticas utilizadas para manter estes temas presentes ao longo do ano.
O envolvimento da gestão de topo é igualmente relevante, mas a informação não deve circular apenas num sentido. Dar às equipas a possibilidade de comunicar riscos, dificuldades e sugestões ajuda a identificar problemas que dificilmente seriam detetados apenas através de procedimentos ou auditorias.
É esta integração que permite que a certificação deixe de ser um exercício associado à data da auditoria e passe a apoiar a forma como a empresa gere os seus processos.
Porquê certificar segundo a BRCGS Packaging Materials?
Para muitas empresas de embalagem, a certificação é já um requisito de acesso a determinados clientes e cadeias de abastecimento. Mas o seu valor não se limita ao certificado.
A aplicação consistente do referencial permite reforçar a gestão dos riscos associados aos materiais de embalagem, melhorar a rastreabilidade, estruturar a avaliação de fornecedores, reduzir a probabilidade de incidentes e criar uma abordagem comum à segurança e qualidade em toda a organização.
Num setor em que uma falha na embalagem pode repercutir-se ao longo de toda a cadeia, esta capacidade traduz-se também em maior confiança para clientes e parceiros.
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